Royal Straight Flush

6 de jul. de 2011 - não enviada por Camila Rufine 4 comentários
Coração na boca, peito apertado, mãos atadas, pulmões que se enchem e esvaziam depressa demais, moleza nas pernas, euforia, determinação, suor gelado, desespero, anestesia, rubor facial, pensamentos trágicos, paralisia, vontade de desistir, necessidade, raiva, sede de vingança... tudo de uma vez, tudo alternado, tudo separado, nada...

É agora ou nunca. All-in.

Sim, senhor

8 de abr. de 2011 - não enviada por Graci 1 comentários
Ah, acabei de saber que hoje é dia de festa.
Lembrei de você.

Pensei no quanto é engraçado um primeiro encontro, dei muita risada sozinha e fiz algumas caretas, admito. Para mim, o nosso foi meio traumático, fique sabendo.
Tenho de te dizer que a única coisa que motivou o segundo (e o primeiro também) foi o desespero, afinal, meu bem, estava com medo de nunca mais ficar com alguém na vida... Até que você apareceu e botei na minha cabeça que uma hora aquilo ficava bom.

Tá. Você é bem ajeitado.
Educado, simpático e tem um futuro promissor. Até que dava para encarar.
Mas é chato. Chato. Chato. Muito chato.
É, e em nome do desespero ignorei isso e seu beijo ruim.
Não vou dizer que me arrependo. Minto. Vou sim, porque me arrependo mesmo.
Por um lado.

Admito que me esforcei, por isso mesmo fiquei frustrada com o pé na bunda. Foi mais pelo silêncio durante ele, na verdade, mas foi chato. E foi quadrado, como você. Pensando bem, até que foi bom, porque eu insistiria, mesmo achando que nada batia. Só que sou rancorosa, né? E, sim, rio quando me deparo com algumas peculariedades suas, apesar de lembrar hoje de tão poucas.

Enfim, até hoje não tive a chance de mandar você para algum lugar bem legal. Achei que você merecia o mesmo silêncio, desta vez sem preconceitos, mas quando eu te ver de novo, se algum dia isso acontecer, acho que não terei cara para dizer nada, mas só porque é típico de mim ser assim. De alguma forma, você acrescentou muita coisa na minha vida e sou grata a isso.

Grata, muito grata, por ter comigo alguém que escuta Chico, não pagode.
Que lê meu Vinicius e encarna um poeta em cada ausência minha.
Que brinca com minha falta de crença sem me recriminar.
Que conversa comigo sobre coisas interessantes.
Que compra livros para ler, não para enfeitar a estante.
´
É, é isso. Se cuida, tá?

Angelical

2 de mar. de 2011 - não enviada por Camila Rufine 4 comentários
- Boa noite, pai.
- Boa noite, filha. Se cuida agora que você está sozinha e dorme com os anjos. Só com os anjos, viu?

Maldição

25 de jan. de 2011 - não enviada por Camila Rufine 3 comentários
- O que vocês dois estão cochichando e rindo aí?
- Nada, não. Não é de você.
- Olha lá, hein. Se tirarem sarro de mim, amanhã o pipi de vocês irá cair...
- Ufa, então estou sossegado.
- Sossegado, por quê? Você não estava falando de mim ou não tem pipi?

Psicose da cabeça dura

17 de jan. de 2011 - não enviada por Camila Rufine 2 comentários
Minha mãe sempre brinca que fui bem batizada. Tudo porque eu, assim como minha madrinha (que também é minha avó paterna), somos assim: quando colocamos uma idéia na cabeça, não sossegamos até que a colocamos em prática.

Quando a idéia vem, a urgência é tanta que quase vira uma obsessão. Se requer plananejamento, torno-me a melhor estrategista. Se requer dinheiro, transformo-me na mais sovina economista. Se requer tempo, cronometro aflitamente dias, horas, minutos e segundos. Se requer coragem, recorro à engarrafada. Se é estapafúrdia, encontro um meio de torná-la lógica.

Mobilizo o mundo e sobrecarrego amigos, pais e parentes de detalhes sobre a estratagema. E quando consigo o que quero, usufruo dez minutos a minha conquista. Sou inundada por um forte sentimento de autossatisfação seguido de um profundo descaso. Largo o meu novo troféu de lado e fico esperando a próxima idéia fixa surgir, para que eu possa dar continuidade ao meu ciclo vicioso.

Não ouse ficar na minha frente...

27 de dez. de 2010 - não enviada por Camila Rufine 4 comentários
Pois meu pai é barra pesada.

Hoje saiu o resultado de um concurso que fiz. Tirei o segundo lugar, mas é só cadastro de reserva. Horas depois de comunicar o meu pai da minha conquista, ele volta para o meu quarto perguntando se eu tinha investigado a procedência da menina que tirou o primeiro lugar:

- Ah, pai. Dei uma investigada, mas não achei nada.
- Então deve ser uma tonta qualquer.
- Pai, se ela é tonta e tirou o primeiro lugar, o que eu sou?!
- Nããão. Não tiro os méritos dela. Mas é que se não tem nada sobre ela, é que ela não tem muitas qualificações e isso é ruim, pois significa que ela está desesperada pela vaga.
- É. Assim como eu.
- O jeito é investigar melhor, descobrir onde ela mora... e mandar matar.


Obs: Se a menina do concurso aparecer morta, não tenho nada a ver com isso. Meu pai pareceu bem convincente ao rir inocentemente depois de sua afirmação, o que me levou a crer que ele tinha acabado de fazer mais uma de suas piadinhas e que eu não serei cúmplice de assassinato nenhum. Mas a ideia até que foi boa.

Quer ouvir uma música?

22 de dez. de 2010 - não enviada por Camila Rufine 2 comentários
Não?
Eu já sabia. Por isso não enviei.



(Wake up in the morning
Looking in the mirror
I open with pain 
Bloodshot eyes againCoffee for the drifter
Hurt by the light of day
I screwed up in vain Bloodshot eyes again
No, no, no.

It's so hard.
I better get used to this
Some say nights are for sleeping

I say nights are for sinking 
In the quicksand behind 
My bloodshot eyes again
No, no, no.

It's so hard.
I better get used to this
'Cause it's bloodshot eyes forever
Can't fool myself, from now on it's
bloodshot eyes forever
For me, for you

For my brothers and sisters
At very morning and dawn
Bloodshot eyes forever)

Dal

12 de dez. de 2010 - não enviada por Graci 2 comentários
Crescemos juntas.
Entre nós algumas árvores, uma cerca, a velha gruta assombrada, além da sua e da minha mãe chamando para voltar para casa.
Fizemos piqueniques, brincamos de casinha no mato, exploramos um pântano tantas vezes, levamos bronca pela roupa suja simultaneamente. Eu da minha, você da sua mãe.
Comemos pitangas, peras, pêssegos, você também gabiroba. Que pavor eu tinha daquelas frutinhas amarelas! Eu podia até odiar, mas não era empecilho, resolvemos ser amigas para sempre.
Compramos bicicletas, pedalamos, começamos a jogar bola.
As duas, sempre as duas, todo mundo distinguia, mas sabia que o time era um só.
E passaram quantos, sete anos?
O suficiente para eu falar de você para alguém e ter de explicar quem você era, mesmo ele sabendo tanto de mim, não era para ser desse jeito. Entre nós, hoje mais que algumas árvores e a gruta: um abismo vindo não sei de onde.

Agora gosto de gabirobas

Inutilitário Materno, capitulo I

12 de nov. de 2010 - não enviada por Camila Rufine 3 comentários
Para quem pensa em ser mãe, ou já é e ainda dá tempo de evitar uma tragédia:

Ame seu filho, eduque-o, ensine bons costumes, ética e moral, incentive o hábito da leitura, o respeito aos mais velhos e o cuidado com a natureza. Faça tudo isso. Mas não esqueça de fazer aquilo que considero, desde hoje, a segunda principal missão materna (só perdendo para 'ser e ensinar os filhos a serem honestos'): Não mime o seu rebento. Lembre-o que na sua casa ele pode até ser a atração principal, mas que fora dela muitos vão o achar sem graça. Que ele tem que prestar atenção para evitar ser inconveniente. Que ele é único, mas não é insubstituível. Que, apesar de que você o ame incondicionalmente, outras pessoas não irão. Que todo mundo tem vontades e que elas podem ir contra as dele. Que sempre que alguém ganha, outra pessoa perde e que ele terá que aprender a encarar as duas situações. Que ser inteligente não lhe dá o direito de ser arrogante. Que ser bonito não lhe dá direito de ser burro. Que ele tem responsabilidade pelos seus atos. Que ele tem que lutar para merecer.

Pode ser mais fácil criar um filho através de agrados, principalmente em um mundo cercado de violência, drogas e música ruim. Mas é justamente nesse mundo que o seu filho terá que sobreviver quando você morrer. Prepare seu filho para a vida real, não para ser um eterno infantilóide cheio de não-me-toques que só atrasará - ou, quizá, arruinará - a vida dos outros.

Um Animus para chamar de meu

1 de nov. de 2010 - não enviada por Camila Rufine 2 comentários
"Acordei de um sonho bom
Que eu queria gravar
Pra poder mostrar pra alguém
Que pudesse apontar

De onde vem esse anjo com quem sonhei?

Reconheço aquele olhar
E o que havia em volta
Mas se é tão familiar
Quero essa resposta

Quem mandou esse anjo com quem sonhei?
Diz pra mim..."
                                          (Gram - Sonho bom)


Dificilmente me acontece, mas quando tenho um sonho assim, fico o dia inteiro refletindo sobre suas possíveis interpretações. Sem saber o que é real e o que é ficção. Impressionada com a simbologia dos detalhes. Ainda mais quando o sonho procede uma fase punk de TPM e depressão temperada com uma ressaca dominical das bravas. Ainda mais quando é um daqueles sonhos que você tem certeza que já sonhou antes, ou que seja a continuação de um sonho antigo quase esquecido.


Acordei às 8h30 da manhã encantada com a doçura daquele anjo sem nome e de rosto desconhecido (muito embora familiar) que me escrevia cartas em códigos que só eu era capaz de entender. Que gostava de mim. Que tinha uma coleção de fotos nossas nas quais eu estava realmente bonita e feliz. Que, depois de um longo sumisso, me ligava de um telefone com DDD 23, cheio de novidades. Que tinha brigado comigo, era tão cabeça dura como eu, mas que tinha se arrependido, pois não conseguia ficar mais longe.


Estava tão seduzida pela ficção que tentei voltar a dormir, esperando continuar com o sonho, mesmo sabendo da tolice de desejar uma coisa tão difícil. Mas o sonho continuou, sim, me fazendo acordar ainda mais confusa. A mesma figura masculina, o mesmo sentimento de conforto por estar na presença de alguém que me fazia bem. Foi absurdo, mas ao mesmo tempo tão real que até chequei meu celular, ao levantar da cama. Se era um anjo, como na música do Gram, era um anjo muito charmoso, que corrigia minha pronúncia errada em inglês sem me fazer sentir burra e que me fez acordar sentindo uma felicidade estranha, quase impossível de tão simples.


*Animus: na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, são aspectos inconscientes de um indivíduo, opostos à persona, ou aspecto consciente da Personalidade. No inconsciente da mulher, esse aspecto é expresso como uma personalidade interna masculina: o Animus.

Finados

22 de out. de 2010 - não enviada por Graci 3 comentários
Se um dia eu morrer, que seja assim
Sem pressa e sem dano, enfim
Ausente e inteira, em meio ao concreto
Brisa fresca no ambiente sedento
Que seja assim, um ramo de flor, muito de mim



(Túmulo abandonado no Cemitério Municipal de Guarapuava. Poesia na tarde sedenta)

Sobre comer barriga...

12 de out. de 2010 - não enviada por Camila Rufine 3 comentários
A única diferença entre um nada e um quase é a expectativa.

Uma pedra a menos não dá o direito de gritar "bingo!". A proximidade entre a trave e a rede não garante o gol. O sorriso da Miss Simpatia não bate a cintura fina da primeira vencedora do concurso. A intenção da piada não garante os risos. Quem quase compra, não leva para casa. Quem quase ama não vê o charme de voltar a ser ridículo. Quem quase vai chega tão longe quanto quem nunca desejou sair do lugar.

O quase é o consolo de quem arrisca, mas tem o mesmo gosto da derrota.

Medalha de prata para o primeiro perdedor.

Detetive

11 de set. de 2010 - não enviada por Camila Rufine 7 comentários
Não é fácil quando alguém vai embora e nós ficamos. Não, quando queríamos que essa pessoa ficasse.

É impossível resistir. Revisamos a memória em busca de sinais de desonestidade, bigamia, desinteresse, abdução ou psicopatia na pessoa que partiu. Investigamos páginas sociais na internet, ficha na polícia, amigos, vizinhos, o nome no Serasa... tudo, à procura de um indício.

Precisamos de provas de que aconteceu algo muito grande. De que só por uma fatalidade alguém não quis ficar ao nosso lado. Sorte de quem encontra alguma justificativa. Triste é, depois de tanta procura, constatar que a resposta mais plausível é a de que nós é que não demos nenhum motivo razoável para que o outro ficasse.

Espera

3 de set. de 2010 - não enviada por Graci 4 comentários
Porque te esperei três semanas, cada dia, todas as horas, os incontáveis minutos e toda vida, esses últimos segundos são os que mais demoram a passar.

Dosado

25 de ago. de 2010 - não enviada por Graci 2 comentários


Um sorvete de limão com calda de morango.
Uma colher para duas bocas gulosas.
Flores de ipê sobre o amor perfeito.
Cor de natal no agosto do desgosto.
Um homem sobre a carroça de lixo duas vezes maior que sua altura.
Uma igreja e suas duas portas fechadas.
A solidão como companheira no banco da praça.
Um diálogo íntimo com o tempo, para que ele não passe.

Tubafa

11 de ago. de 2010 - não enviada por Camila Rufine 6 comentários
No parquinho eu derretia sob o sol, enquanto observava o grupo de garotas a brincar de pirata e vigiava para que nenhuma tragédia envolvendo os meninos que eu cuido e a lei da gravidade acontecesse. Parei embaixo de um dos escorregadores para aproveitar alguns segundos de sombra, quando escutei:

- Tubarão! Tubarão! Tubarão!

Olhei para cima e vi, pela fresta da plataforma, o indicador de uma menina magricela que apontava para mim com os olhos esbugalhados. Não me contive e perguntei:

- Eu sou um tubarão?

Ela me fitou com um cinísmo quase adolescente e respondeu que sim. E continuou:

- Tubarão gigante, salve-se quem puder!

O resto da patotinha de meninas olhou para mim e começou a gritar desesperadamente. A garota magricela, que parecia ser a capitã do navio imaginário, passou a despejar ordens para as marujas, que começaram a correr para lá e para cá, como baratas detefonizadas. Eu estava desidratada demais para entrar no clima e simplesmente abstraí. Mas daquele momento em diante, toda vez que eu me aproximava do escorregador era o mesmo alvoroço. Até que as meninas foram embora.

Respirei tão aliviada pela desocupação do ambiente que me senti mais disposta. Então fui brincar com um dos 'meus' meninos, carregando-o nas minhas costas e dizendo:

- Pocotó, pocotó, eu sou um cavalo!

Mas a minha representação foi interrompida pelo garotinho que parou do meu lado para me corrigir:

- Você não é um cavalo. É uma girafa.

Querida Xuxa,

4 de ago. de 2010 - não enviada por Camila Rufine 5 comentários
Sabe quando a pele está tão descuidada, seca e quebradiça, que começa a coçar?

Pois é. Estou com essa coceira, mas é no coração.

Você sabe se existe Monange em cápsulas?




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Do mesmo time

21 de jul. de 2010 - não enviada por Camila Rufine 5 comentários
De todas as crianças do parque, identifiquei-me com o menino de cabelo branco e camiseta roxa.

Eu esperava a hora passar, enquanto observava a profusão de crianças a brincar. Atentei-me ao tal menino, que, minutos atrás, fazia o inferno da vida de uma garota que supus ser sua irmã mais velha. Ele a provocou, empurrou e tirou sarro até que ela resolveu retrucar: deu-lhe uns bons sopapos, arrancou-lhe algumas lágrimas, foi para longe, deixando-o cabisbaixo, a quicar a sua bola de borracha e provavelmente pensando em como o mundo era injusto.

Mais rápido do que qualquer psicólogo infantil preveria, o mesmo menino quase albino da camiseta roxa já tinha parado de se lamentar e estava brincando de bola com outra menina. Não sei se sua irmã, acredito que não. A brincadeira fluiu pacificamente até que a garotinha arremessou, sem querer, a bola para muito longe. E ele, é claro, jamais perdoaria um deslize tão grave. Deu um jeito de espantá-la com a sutileza de um tornado e ficou ali, sozinho, obtendo sucesso zero ao tentar quicar sua bola no gramado macio.

Após muita insistência, o menino roxo, ops, digo, o menino da camiseta roxa resolveu dar uma segunda chance à menina que jogou a bola muito longe. Mas ele fez suas exigências. Ela não poderia mais segurar a bola. A ela só caberia observar. Tarefa tão maçante que não tardou para que ela desse um basta, pegasse o seu patinete e fosse para o outro extremo do parquinho, com a cara amarrada. O menino reagiu com desdém e foi brincar nos escorregadores, fingindo entusiasmo. Depois que escorregou do brinquedo mais alto, ele sacudiu a poeira e me encarou, daquele jeito que só as pessoas que se entendem muito se olham.

O menininho de cabelo branco e camiseta roxa é o dono da bola, mas não tem com quem brincar.

Lápis de cor

18 de jul. de 2010 - não enviada por Graci 3 comentários
Amo você.

Daquele jeito que não tem explicação, como o sorriso inteiro que surge no rosto com o “te amo você também”.

Amo quando você rouba brócolis do meu prato, finge que meu corpo é uma pista de corrida, quando diz que eu sou linda e a mais que mais preferida.

Amo colocar minha mão nos seus cabelos, meu nariz no seu pescoço para aspirar seu cheiro até o perder o ar, olhar seu rosto tão de perto e decorar cada pintinha de beleza.

Amo o olhar o matreiro, encantado, encantador... A bagunça da madrugada, a pressa do café matinal sem pressa.

Amo as descobertas e as lições que você me passa. Amo a pessoa que você é e a que me fez ser.

E não tem amor maior mundo, nem saudade que mais doa que a sinto por você.
Aposto que a luz de seus cabelos é suficiente para colorir inteiro esse céu cinza que ficou sobre mim a semana inteira, então, vem logo.

Amo você, não esquece.

Leite, torrada e mel

9 de jul. de 2010 - não enviada por Camila Rufine 7 comentários

Aconteceu há 10 anos.

No carro, íamos minha mãe e eu. Ela estava muda, mas na metade do caminho resolveu arriscar:

- Filha, quem é Onêi?
- O Nei? O Nei é o pai, ué.
- Não, Camila. Onêi. H - O - N - E - Y.
- Honey?! Honey é mel em inglês.

Minha mãe desviou o olhar da estrada e me fitou, procurando por algum indício de mentira. Quando viu que eu realmente não sabia do que ela estava falando, começou a rir...

- Qual é a graça, mãe?
- É que seu pai viu isso escrito no espelho quando saiu do banho e me chamou, achando que era o nome de algum paquerinha seu. Ele ficou uma arara. Até me pediu para investigar tudo e contar para ele.
- Hahahahahahahaha...

Eu não conseguia parar de rir, mas me dediquei a lembrar o que poderia ser aquilo.

- Ah, mãe! Eu já sei. Tem essa banda que eu gosto, Roxette. Esses dias eu estava ouvindo a música durante o banho e escrevi "honey", pois tem isso na letra. E deve ter ficado lá quando o espelho embaçou novamente.
- Hummmm, entendi.
- Hahaha. Mas não conta para o pai que você sabe, que eu quero judiar dele mais um pouco.

Minha mãe, famosa por adorar pregar peças, não se opôs. Naquela mesma noite, após ter acabado de tomar meu banho, olhei para o espelho embaçado e não me contive. Desenhei um grande coração transpassado por uma flecha e escrevi "H e C" dentro.

Para a minha aflição, meu pai demorou ir tomar banho e após um tempo eu já tinha esquecido da brincadeira. Só fui lembrar quando, mais tarde, senti a casa estremecer com um grito furioso vindo do banheiro:

- MUIÉ, VEM CÁ. AGORA!

E minha mãe foi, já imaginando qual era o problema ao me ver gargalhando baixinho na sala de TV. Do lado de fora, não pude ouvir nada do que eles conversaram. Mas acho que ela lhe contou a verdade. Logo que a vi sair do banheiro, ela me deu um soslaio e um sorriso discreto. Minutos depois meu pai apareceu na sala, com o cabelo molhado, todo sisudo e de poucas palavras:

- Não quero conversa. Vai começar o jornal.