Tinto e seco

19 de mai de 2010 - não enviada por Graci 3 comentários
Eu queria te dizer, agora, que esse frio me deixa ainda com mais vontade de estar contigo, de te abraçar, de deitar juntinho debaixo do mesmo cobertor e compartilhar, aos olhares cúmplices, uma taça de vinho, duas, a garrafa inteira, os risos e o rosado da bochecha depois dela.

Eu estou com saudade, poxa, só isso.

Saideira

14 de mai de 2010 - não enviada por Camila Rufine 5 comentários
Um olá e um beijo - no rosto.

Diferente de todas as outras vezes nas quais tive que rever alguém que me fez sofrer, desta, não doeu. O coração bateu, sim, mais rápido, mas não o senti encolher bruscamente, como se ele fosse deixar de existir. Não fiquei sem fôlego. O nó na garganta se dissolveu em segundos. O sentimento de rejeição deu lugar à certeza de que nada acontece por acaso. Eu não sentia mais raiva, vergonha, ou mágoa. E já que eu não tinha outra escolha a não ser estar ali, prometi a mim mesma que iria me divertir.

Abotoei o cinto e fiz minha parte para que a conversa fluísse confortavelmente pelo caminho. Lembrei-me, sem saudade, de como ele costumava segurar a minha mão enquanto dirigia e do quanto eu me esforçava para que ela estivesse sempre macia. A recordação surgiu tão remota e sem vida que parecia ter acontecido há muitos anos. E a ironia me provocou a vontade de rir. Permiti-me.

Sorri discretamente. E o fiz outras muitas vezes naquela noite. Quando pude escarnar friamente todos os seus defeitos, antes ignorados. Quando conseguia me convencer de que eu era melhor, mesmo ele sendo indiscutivelmente mais inteligente. Quando ele me puxava, forçando abraços ao ver outros homens olhando para mim.

Eu não parecia a mesma que, há alguns dias, estava aos prantos pedindo conselhos às amigas e tentando entender o que teria acontecido. Toda a aflição pelo reencontro desapareceu. Pela primeira vez na vida eu não vivenciei o desejo de vingança, a torcida para que tudo acontecesse de pior para ele, nem a aposta comigo mesma de que um dia ele se arrependeria.

Ninguém tocou no assunto. Ninguém provocou ninguém. E, na porta de casa, trocamos aquele olhar de quem sabe que nunca mais se verá, sem se importar que isso realmente aconteça.

Gardenal

10 de mai de 2010 - não enviada por Graci 4 comentários
“Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê?”
( Caio Fernando de Abreu, Morangos Mofados)


Não, não há motivo.
Não quero que você venha me dizer o quanto a vida é linda e as possibilidades fantásticas, não me iluda. Hoje acordei bem, mas, sem perceber, a saliva azedou e fiquei amarga, pensando nesse zilhão de coisas que consegui ignorar ainda sob efeito analgésico e antiespasmódico.

Não foi a cerimônia no Exército ou o encontro com aquele ex que eu nem gostava. Não foi a chuva molhando meu pé que não esquenta. Não foi o e-mail não recebido. Não foi o salário baixo nem o almoço salgado, muito menos a batida de carro.

O problema, meu bem, sou eu, sempre foi, por que, afinal, esperar tanto de si e do mundo não pode ser normal, me diz, não é? Claro que não, pare com isso, te escuto dizer enquanto balança a cabeça e vira as costas, demência a minha assumir, loucura absoluta tentar explicar, insanidade esperar que você compreenda, eu sei.

Mas, acontece que, acontece sempre, não acontece, me diz, é possível? Não acontece e o tempo passa passa passa e quando percebo é inverno, a temperatura é menor que dez graus e estou ali de regata, observando os desenhos que deixei nas primeiras voltas, tentando largar todas as angústias aumentando a velocidade, arfando, o tempo passando passando passando faz quanto tempo já?

É tempo suficiente, me diz, chegou a hora de começar a fazer sentido ou eu é que não consigo ver, você sabe, me fale, ta voltando a doer mas eu não queria, dessa vez não. Tinha até esquecido como é, mentira, não tinha, estava fingindo até para mim mesma, mas não, não é suficiente, nunca é, desde sempre... Por quê?

Sei só que sobrou uma garrafa de vinho barato, alguns poemas gastos de Vinicius, uma dezena de diários e a procura que não cessa, mas, não corre, um pouco de saliva. Amarga.

Cápsulas intactas.

Artificial

3 de mai de 2010 - não enviada por Camila Rufine 2 comentários
A vermelhidão da bochecha, aprendi a mascarar com uma espessa camada de maquiagem. A gagueira, consigo evitar ficando quieta. A vontade incontrolável de rir, digo que é de uma piada antiga que lembrei - mas que não quero contar agora. O pânico de olhar nos olhos, difarço fingindo-me interessada por aquilo que está ao redor. As pernas bambas, compenso encontrando um pretexto para sentar. O complexo de inferioridade, oculto com piadinhas autopejorativas. A mania de ficar batucando com os pés para aliviar a tensão, tento fazer parecer menos irritante ao seguir o ritmo da música. E coragem, até consigo - mas ela só vem engarrafada.

Há cinco minutos eu ainda te culpava por não ter dado certo, quando me esforcei tanto em parecer uma pessoa próxima do normal. Mas é hora de encarar os fatos. Tudo o que não é natural pode ser interpretado como falsidade e eu me lembro de você dizendo que odiava mentiras. A verdade é que eu não consigo apenas ser, sem tentar ser diferente.

Foi quase bom enquanto durou. Pelo menos para mim.