Sinto a cabeça doer antes mesmo de acordar. Isso explica o pesadelo. Levanto com o pé esquerdo e dou de cara com o espelho. O cabelo já está oleoso, de novo. A franja, irreparável. Eu deveria usar xampu de laranja. Na verdade, a linha completa da fruta, já que estou um bagaço dos pés à cabeça.
Lavo o rosto pra acordar. Odeio esse sabonete de erva doce que não acaba mais. E eis que surge uma espinha interna na testa. Não entendo o nome, já que estas são as mais visíveis. Eca, o creme dental também tem gosto de erva doce. Confiro se não estou escovando os dentes com sabonete. Não estou. Tomo um café da manhã chocho e vejo que o tempo está nublado. Lembro que não sei dirigir na chuva e prevejo que não passarei na autoescola.
Finjo otimismo e vou cumprir meu destino. O teste é na outra cidade. Droga de cidade pequena. Droga de menstruação que não acaba. Ops. Será que lembrei de colocar absorvente? Mais isso agora, pra me deixar mais tensa. Calma, você não precisa ficar nervosa, isso não te ajudará em nada. Merda, dá pra se acalmar?!
Espero em pé. Chuva que chove mas não molha. Estômago vazio há horas. O cabelo seboso e armado. Pelo menos não esqueci do absorvente. Chegou a minha vez de treinar a direção. Preferenciais loucas e ruas não sinalizadas. É claro que não vou conseguir.
Chega a hora do exame. Baliza perfeita. Mas o carro não dá a partida em terceira. É uma pena. Eu estava certa: reprovei. Eu e as outras duas, pelo menos. A tragédia coletiva ajudou a me confortar. Silêncio total no carro de volta pra casa. Ironicamente o sol aparece. E essa dor de cabeça que só piora...
Ligo para minha mãe que acha que estou brincando. Lamento que não. Volto pra casa. O comprimido mergulha de barriga no meu estômago vazio. Enfio uma agulha na espinha. Espremo até ela se jogar contra o espelho. A espinha murcha, a testa incha. A cabeça para de doer, mas o estômago começa a reclamar. Almoço um salgadinho às quatro da tarde. Às quatro e quinze estou com fome novamente.
Na tevê passa ‘O náufrago’, então lembro daquela professora do primeiro ano de Jornalismo. Quero chorar. Choro duas lágrimas que saem forçadas. Sinto uma vontade imensa de abraçar aquela pessoa que não tenho porque não quero. A garganta dói porque não chorei o quanto devia. O chuveiro não esquenta. A unha lasca. Preciso tirar a sobrancelha.
Então penso que dizer que meu dia foi um lixo é uma ofensa ao lixo. Concluo que meu dia foi chorume. Uma fina safra de chorume do chorume do chorume. Decido que é melhor dormir mais cedo hoje. Mas sou capaz de apostar comigo mesma que terei insônia.
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Lavo o rosto pra acordar. Odeio esse sabonete de erva doce que não acaba mais. E eis que surge uma espinha interna na testa. Não entendo o nome, já que estas são as mais visíveis. Eca, o creme dental também tem gosto de erva doce. Confiro se não estou escovando os dentes com sabonete. Não estou. Tomo um café da manhã chocho e vejo que o tempo está nublado. Lembro que não sei dirigir na chuva e prevejo que não passarei na autoescola.
Finjo otimismo e vou cumprir meu destino. O teste é na outra cidade. Droga de cidade pequena. Droga de menstruação que não acaba. Ops. Será que lembrei de colocar absorvente? Mais isso agora, pra me deixar mais tensa. Calma, você não precisa ficar nervosa, isso não te ajudará em nada. Merda, dá pra se acalmar?!
Espero em pé. Chuva que chove mas não molha. Estômago vazio há horas. O cabelo seboso e armado. Pelo menos não esqueci do absorvente. Chegou a minha vez de treinar a direção. Preferenciais loucas e ruas não sinalizadas. É claro que não vou conseguir.
Chega a hora do exame. Baliza perfeita. Mas o carro não dá a partida em terceira. É uma pena. Eu estava certa: reprovei. Eu e as outras duas, pelo menos. A tragédia coletiva ajudou a me confortar. Silêncio total no carro de volta pra casa. Ironicamente o sol aparece. E essa dor de cabeça que só piora...
Ligo para minha mãe que acha que estou brincando. Lamento que não. Volto pra casa. O comprimido mergulha de barriga no meu estômago vazio. Enfio uma agulha na espinha. Espremo até ela se jogar contra o espelho. A espinha murcha, a testa incha. A cabeça para de doer, mas o estômago começa a reclamar. Almoço um salgadinho às quatro da tarde. Às quatro e quinze estou com fome novamente.
Na tevê passa ‘O náufrago’, então lembro daquela professora do primeiro ano de Jornalismo. Quero chorar. Choro duas lágrimas que saem forçadas. Sinto uma vontade imensa de abraçar aquela pessoa que não tenho porque não quero. A garganta dói porque não chorei o quanto devia. O chuveiro não esquenta. A unha lasca. Preciso tirar a sobrancelha.
Então penso que dizer que meu dia foi um lixo é uma ofensa ao lixo. Concluo que meu dia foi chorume. Uma fina safra de chorume do chorume do chorume. Decido que é melhor dormir mais cedo hoje. Mas sou capaz de apostar comigo mesma que terei insônia.
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