- O que vocês dois estão cochichando e rindo aí?
- Nada, não. Não é de você.
- Olha lá, hein. Se tirarem sarro de mim, amanhã o pipi de vocês irá cair...
- Ufa, então estou sossegado.
- Sossegado, por quê? Você não estava falando de mim ou não tem pipi?
No carro, íamos minha mãe e eu. Ela estava muda, mas na metade do caminho resolveu arriscar:
- Filha, quem é Onêi?
- O Nei? O Nei é o pai, ué.
- Não, Camila. Onêi. H - O - N - E - Y.
- Honey?! Honey é mel em inglês.
Minha mãe desviou o olhar da estrada e me fitou, procurando por algum indício de mentira. Quando viu que eu realmente não sabia do que ela estava falando, começou a rir...
- Qual é a graça, mãe?
- É que seu pai viu isso escrito no espelho quando saiu do banho e me chamou, achando que era o nome de algum paquerinha seu. Ele ficou uma arara. Até me pediu para investigar tudo e contar para ele.
- Hahahahahahahaha...
Eu não conseguia parar de rir, mas me dediquei a lembrar o que poderia ser aquilo.
- Ah, mãe! Eu já sei. Tem essa banda que eu gosto, Roxette. Esses dias eu estava ouvindo a música durante o banho e escrevi "honey", pois tem isso na letra. E deve ter ficado lá quando o espelho embaçou novamente.
- Hummmm, entendi.
- Hahaha. Mas não conta para o pai que você sabe, que eu quero judiar dele mais um pouco.
Minha mãe, famosa por adorar pregar peças, não se opôs. Naquela mesma noite, após ter acabado de tomar meu banho, olhei para o espelho embaçado e não me contive. Desenhei um grande coração transpassado por uma flecha e escrevi "H e C" dentro.
Para a minha aflição, meu pai demorou ir tomar banho e após um tempo eu já tinha esquecido da brincadeira. Só fui lembrar quando, mais tarde, senti a casa estremecer com um grito furioso vindo do banheiro:
- MUIÉ, VEM CÁ. AGORA!
E minha mãe foi, já imaginando qual era o problema ao me ver gargalhando baixinho na sala de TV. Do lado de fora, não pude ouvir nada do que eles conversaram. Mas acho que ela lhe contou a verdade. Logo que a vi sair do banheiro, ela me deu um soslaio e um sorriso discreto. Minutos depois meu pai apareceu na sala, com o cabelo molhado, todo sisudo e de poucas palavras:
(Já entendi que nesta festa lotada quase todas as meninas comem um caminhão de merda por você, enquanto o máximo que eu consegui até agora foi um doido-de-camiseta-rosa-e-nome-hilário-querendo-compromisso-sério e um baixinho-esforçado-que-usou-uma-cantada-que-ainda-não-entendi.
Aposto que você pensa, satisfeito, que seria um favor que me faria, caso chegasse em mim. E seria mesmo, pois eu adoraria ter a oportunidade de te dispensar, só pra desmanchar essa sua feição de quem não sabe o que é derrota. Mas se eu sou assim: orgulhosa, você é assim: sem brio. Então pare de ficar dando voltas supostamente despropositais em mim e esfregando essa camiseta polo listada no meu vestido, dando as cartas de um jogo que não quero participar.
Pois não foi para você que me vesti assim. Nesse lugar onde a grande maioria das gurias usa a bota pra fora da calça jeans apertada, escolhi minha sapatilha surrada, sob forma de protesto. E esse vermelho-ardente nas unhas e a aguardente no copo não são apenas tentativas de eu transpor essa muralha que construí entre mim e o mundo. São também artifícios para contrapor o frio – manifesto lá fora e latente aqui dentro do peito. Não sei dizer exatamente se foi a vida quem me deixou assim ou se fui eu quem transformou a vida nisso. Mas esse detalhe não lhe diz respeito.
O que vem ao caso é que vim parar nesse lugar cheio de gente que não admiro, ouvindo músicas que não aprecio e enchendo a cara para esquecer detalhes que não posso mudar, sabendo que homens como você não entendem, nem nunca entenderão essas sutilezas gritantes do universo das mulheres que pensam, sentem e sofrem.)
Madrugada, boate lotada, beijos e danças exóticas, conversa insólita.
Você gosta de Guimarães Rosa? -Adoro. - Eu tenho a obra completa dele. (Olho intrigada, quieta, com cara de não sei o quê. Meio silêncio, meio riso.)
-Qual seu heterônimo preferido do Fernando Pessoa? (Rio, com cara de completa descrença) -Gosto bastante do Pessoa ele mesmo, mas também adoro Álvaro de Campos. - Eu prefiro o Alberto Caieiro. -Imaginei. Eu só não só muito chegada no Ricardo Reis, Antônio Prata (Olho ainda descrente, rindo). -Antonio Prata não. Ricardo.
- Meu primo sempre disse que você é a cara do Brad Pitt. - E você concorda com ele? - Não! Nada a ver. - Você também não lembra a Angelina Jolie. Seu primo tem telefone?
- Eu nunca fui um cara fiel. Todo mundo fica falando em monogamia, mas no reino animal apenas algumas aves são monogâmicas. - É... mas alguma vez você viu alguma vaca fofocando com outra que a Mimosa é corna? - Hã... não. - Poisé. Eu acho que o ser humano acaba sendo fiel por causa do falatório. - Sabe que você tem razão?! Essa é uma teoria sua? - Sim. - Você já tinha pensado nisso sem estar bêbada? - Não.
- Eu não vou almoçar aqui com vocês, senão eu chego em casa e minha mãe fica brava de eu não comer a comida dela. - Você tem mãe, tia? - Tenho. - E pai? - Sim... - (Olhar de espanto) Então você é filha também?
Segunda-Feira: [Estudando para o exame de legislação da CNH]
- Pai, ajuda aqui. “Os componentes do sistema de alimentação, são...”? - Colher, garfo, faca...
Terça-Feira: [Jogando Uno]
- Nossa! Eu jogo bem demais... sete e meia chega um ônibus ali na rodoviária, viu? - Hãn??? - É, ué... pra você ir lá buscar alguém que tente ganhar de mim.
Quarta-Feira: [Jogando Uno, de novo...]
- Que vença o melhor, pai. - Se fosse assim mesmo, eu nunca perderia.
Quinta-Feira: [Revisando as perguntas para a prova de legislação]
- Pai, olha só até que tipo de pergunta cai: “O que é necessário para uma convivência harmônica entre os indivíduos?” - Essa é fácil. Ter uma faca maior que a dos outros.
Sexta-Feira: [Em frente a uma vitrine, após sair da agência de viagens]
Mãe: Bem, o que você acha de comprar aquela lingerie pra quando a gente for fazer o cruzeiro? Pai: (Olhar de espanto) Ah, muié. Se for pra eu usar, não quero não.
Sábado: [Depois da reforma que retirou a maioria dos degraus de casa, para evitar mais tombos da mãe]
- Bem, acredita que eu ainda tropeço nesse degrauzinho aqui (de mais ou menos 3cm)? - Ah, muié. Melhor do que ficou aqui, só se a gente for morar na lua.
Domingo: [Farolete aceso na mão, mirando na minha cara]
-Sabe por que eu comprei esse farolete aqui? -Porquê, pai? - Pra caçar capivara.
- Tia Camila, sabia que eu tenho um namorado? - Ah, é? Qual o nome dele? - André. Ele estuda em outra escola. - E ele sabe que é seu namorado? - Sim... Ele até sabe o meu nome! .
[ Momento família. Dinho Ouro Preto sem camiseta na televisão...]
Mãe: - Nossa, quanta tatuagem nesse cara! Eu: - Ah, eu ainda tenho só duas... hahaha, olha a cara que a mãe fez. Mãe: - Claro que não. Eu sei que é mentira sua. Pai: - Eu sei aonde você tem as duas tatuagens... Eu: - Aonde? (Esperando alguma piadinha típica) Pai: - O seu nome, aqui (apontando pro coração dele) e ali no da sua mãe. (Março, 2009)