Assim que bisbilhotei e tive a confirmação da minha suspeita sobre este infeliz acontecimento na sua vida, corri compartilhar a novidade com minha mãe.
Antes de você me chamar de fofoqueira, saiba que assim que ela soube que iria ficar um ano sem me ver, fez-me prometer, olhando nos olhos dela, que eu iria informá-la sobre qualquer romance que viesse a acontecer aqui. Qualquer um mesmo.
Achei justo, já que, calculando rapidamente as probabilidades e analisando grosseiramente a situação, admiti que eu já tinha escondido muita coisa dela e que as chances de eu ter um affair por essas bandas seria quase nulo.
Eu me enganei e ela ficou sabendo, pois cumpro minhas promessas. E ao saber da versão resumida e nada imparcial da meteórica história, é evidente que ela tomou o meu partido.
Isso não significa que minha mãe seja leviana. Não, não. Ela não exita em chamar a minha atenção. Ela sempre me aconselha a fazer a coisa certa. E é por isso que ela quase nunca sabe nada da minha vida. Mas hoje eu acordei no espirito de querer fazer a coisa certa. E como isso é raro, recorri à especialista.
E ela disse para eu deixar para lá. Que você não foi lá, assim, tão legal comigo e que a gente nem vai se ver novamente mesmo. Então é isso. Acho que se eu disser que segui o conselho da minha mãe, fica menos feio do que admitir que não senti vontade de puxar assunto, nem ao menos para parecer educada.
A vermelhidão da bochecha, aprendi a mascarar com uma espessa camada de maquiagem. A gagueira, consigo evitar ficando quieta. A vontade incontrolável de rir, digo que é de uma piada antiga que lembrei - mas que não quero contar agora. O pânico de olhar nos olhos, difarço fingindo-me interessada por aquilo que está ao redor. As pernas bambas, compenso encontrando um pretexto para sentar. O complexo de inferioridade, oculto com piadinhas autopejorativas. A mania de ficar batucando com os pés para aliviar a tensão, tento fazer parecer menos irritante ao seguir o ritmo da música. E coragem, até consigo - mas ela só vem engarrafada.
Há cinco minutos eu ainda te culpava por não ter dado certo, quando me esforcei tanto em parecer uma pessoa próxima do normal. Mas é hora de encarar os fatos. Tudo o que não é natural pode ser interpretado como falsidade e eu me lembro de você dizendo que odiava mentiras. A verdade é que eu não consigo apenas ser, sem tentar ser diferente.
Foi quase bom enquanto durou. Pelo menos para mim.
Em casa, entusiasmo. Passando pela frente da casa da madrinha, faceirice. Na primeira parada para entrar na rodovia, apagão. No trecho alagado do percurso, primeira ultrapassagem. Menos de um quilômetro adiante, engraçadinho que buzina. Preferenciais, placas, lombadas, rotatórias, alguém encostado: desespero. Lombadas incessantes, um pé no freio outro na embreagem, sem reduzir marcha (?). Quilômetros adiante, mais lombadas, carros, pessoas, placas... Lágrimas nos olhos. Decisão: amanhã, de ônibus.
Ps. : não, não se arrisque. Passe bem longe de um uno verde meio azul. Ninguém garante.
Pensei bastante até concluir que não gosto da idéia que posso ser esquecida. Isso pode ser culpa do excesso de cuidados da minha mãe. Também desconfio do meu ascendente em Leão (maldita astrologia).
Bem... apesar de não ser uma pessoa essencialmente boa, no fundo sempre me induzi ao erro ao acreditar que meus pequenos e raros feitos altruístas perdurariam eternamente na memória das pessoas. Algo como quando uma adolescente bagunceira e impertinente resolve arrumar o quarto sem a mãe pedir. Trata-se de uma atitude tão única e bela para a jovem, que ela se esquece que não fez mais do que a obrigação e imagina que mudança impressionará tanto, que nunca mais seja preciso reorganizar o quarto novamente.
É assim que eu sou com todas as pessoas que convivo. Eu tenho rompantes de bondade, pieguice e companheirismo seguidos de longos períodos de apatia crônica. Dessa forma, confundo e machuco as pessoas, convencida de que qualquer excesso meu será entendido por elas como um charme da minha personalidade. Até que um dia elas se cansam da bagunça que reina aonde jaz o espírito de um quarto que foi arrumado só para impressionar,se mandam e não sentem a minha falta. Quando me dou conta disso começo a sofrer, procurando todas as maneiras possíveis de chamar a atenção sem parecer que eu estou fazendo isso propositalmente.
Então arrumo o meu quarto mais uma vez. Acendo até incenso (se a pessoa gostar de incenso). E convido para mais uma visita. Se eu consigo reconquistar a amizade (ou qualquer que seja a relação afetiva), após duas semanas - até menos que isso - já não noto a meia jogada no chão nem os farelos de biscoito e a toalha molhada em cima da cama.
Sou instável, bagunceira e preguiçosa e sobretudo burra por ainda questionar o motivo pelo qual eu não sabia manter as pessoas por perto ou por que meu telefone nunca toca às sextas e sábados à noite.
Ps: meu quarto está uma bagunça, mas procrastinarei enquanto eu conseguir manter a porta dos armários e as gavetas fechadas. Ou até a próxima crise de solidão.
Às vezes, quase toda hora, eu sinto. Ora do tipo inspiradora, ora corrosiva. Porque o Nescau na casa dos outros é sempre mais gostoso, a grama mais verde e as dores menos doloridas.
Ps: aqui está mais um tijolinho pra construir a sua fama.