Exma. Princesa (rega)Lia:

29 de set de 2008 - não enviada por CamilaRufine 2 comentários
Como é que vão as coisas aí na isolação da torre do castelo? Não conversamos desde que seu pai, o senhor Rei-na-Barriga invadiu o Vilarejo Encantado, transformando-o em Reino da Libertinagem.

O motivo de eu lhe escrever é que, sem querer querendo peguei um dos manuscritos reais assinados pelo seu pai, distribuidos em massa aqui no vilarejo. Não sei se você está ciente disso, mas ele pede ajuda. Segundo o manuscrito, você se isolou aí na torre, dizendo a todos que todo mundo a explora, maltrata. Parece que você está insatisfeita com tudo. Ele não consegue entender sua revolta.

Qual é a parte ruim de ficar a tarde toda descansando a intocada beleza? Cansou-lhe a monotonia de tomar chá inglês e dramatizar com os Mauricinhos e Patricinhas da corte a dureza de ter tudo na mão? Deve ser o desgaste da ansiedade de esperar na janela da torre as visitas do Príncipe Capachus ou de precisar reclamar diariamente pelo repertório repetitivo dos dois bobos da corte.

Olha, princesa... sem querer ser a bruxa malvada, mas já sendo (lembrando que de 'bruxa malvada' só tenho a parte bruxa), toda a comunidade plebéia esperava, pelos indícios da juventude, que você seria a nova Joana d’Arc. Mas agora há até um bolão e a grande maioria aposta em Maria Joaquina Villaseñor. O que aconteceu com a jovem que queria mudar o mundo? O
sangue azul escureceu sua memória com o passar dos anos? Acertaram-na na cabeça com a mesa do banquete? Oh, meu Deus!!! Mataram-na e tomaram o seu lugar?

Desculpe o sarcarmo, e pode me chamar de plebéia recalcada. Com certeza um dia eu quis meu próprio príncipe-ex-sapo e desejei possuir tudo o que você ostenta como troféu. Mas milady, o motivo pelo qual eu escrevo não é contar meu passado fútil. Preferi lhe remeter diretamente uma carta, para evitar constrangimentos com o senhor, seu pai.

Como eu disse, sou bruxa, sem ser [sempre] malvada. Logo, utilizei meu fantástico lustre-bola-de-cristal e meus poderes advindos dos olhos de Tandera e eu vi... vi uma conspiração de todos contra você. Colocam óleo extra na sua salada. Espalham pequenas porções de pó de mico nas suas anáguas. Não te convidam pros famigerados pancadões que acontecem aqui, na plebe (e que eu vi no lustre-bola que você morre de vontade de ir).

Mas alteza, eu também vi a causa de todos os seus dilemas. O seu problema é a falta. Falta de memória e de consideração. Lembra daquele dia que a cozinheira passou horas na feira da plebe escolhendo as melhores verduras pra sua nova dieta e você nem agradeceu? Lembra de todas as vezes que a filha da costureira real lhe fez o convite de sair com ela e você preferiu ficar treinando o pombo correio ir no castelo do príncipe Capachus? As leis de ação e reação continuam valendo aí dentro das paredes reais, madame.

E tem mais: vi também o futuro. Sabe aquela menina desengonçada, filha do primeiro marido da sua mãe, que você explora botando-na pra limpar as lareiras? No lustre-bola ficou claro como o dia. Vi essa moça, uma fada, uns ratinhos e um sapato de cristal. Tenho a nítida impressão de que isso afetará o seu felizes-para-sempre. Mas só te conto mais detalhes se você me mandar 10 moedas de ouro.

Minhas saudações. Se quiser, me procure no baile, mas tem que ser antes da meia-noite. Ouvi dizer que vão distribuir sopa de abóbora depois desse horário.

.


Faz tempo...

23 de set de 2008 - não enviada por Graci 3 comentários
Boomp3.com


Amores de juventude marcam, Tiago. Principalmente quando a gente sabe que fez besteira, admite que se arrependeu, mas não tem coragem de tentar mais uma vez. E o tempo passa, pessoas morrem, outras nascem, algumas crescem e outras ficam cada vez mais amarguradas com a vida que deveriam ter vivido e deixaram de lado por causa de limitações que nem mesmo existiam. Fizemos isso? Eu, por um tempo, quem sabe...

Desde aquela carta que eu não deveria ter mandado, mas que sei que você ainda guarda, muita coisa aconteceu. Quase cinco anos. Já?

Eu fui embora, achei que tinha encontrado o alguém, não nos falamos mais, tive a grande desilusão da minha vida e, depois, um filho para me salvar disso tudo. E nesse tempo todo, o que você fez? Ainda guarda um pouco de si somente para mim?

Eu já não sei. Nem mesmo sei se a gente um dia, assim, quem sabe, vai ficar junto de novo. E talvez eu não queira isso (sim, certas coisas nunca mudam), mas outras eu penso que sim e fico pesando os prós e os contras dessa volta ao passado, sem saber se fico ou vou, ainda com o mesmo medo de antes, um medo que não se explica, de tão bobo que é, mas que permanece ao tempo, ao mesmo tempo que voltei hoje de manhã com aquele abraço e a felicidade que senti nos seus olhos.

Sim, eu continuo estranha e boba, a mesma que você conhece desde criança.

Pai, mãe...

21 de set de 2008 - não enviada por CamilaRufine 2 comentários
Boomp3.com

Desde a última conversa que tivemos, muita coisa mudou, não só para mim. Imagino como deve ter ficado a cabeça de vocês ao saberem que a garotinha “que nunca deu dor de cabeça” era só uma casca fina que cobria um monstrinho deprimente.

Foi estranho. Tanto porque pela primeira vez em 22 anos eu os fiz chorar, quanto pela decepção em perceber que eu estava certa enquanto escondi tudo, por achar que vocês não me entenderiam. Eu até gosto de ser um enigma, mas só dessa vez eu esperava ser entendida...

Entretanto, acho que isso não é função dos pais, ou é? Que eu saiba, pais são ‘feitos’ para educar, sustentar, dar amor, segurança e se responsabilizar por aquilo que resolveram, planejadamente ou não, colocar no mundo. Isso, sim. Entender, não.

Em contrapartida, nós, filhos, devemos respeitar, obedecer, mostrar que o investimento feito está sendo bem utilizado e ainda retribuir todo o amor que nos foi dado, mesmo que amar não seja o nosso forte. Tudo isso, menos exigir entendimento. Compreensão talvez, caso tenhamos sorte.

Foi chato e vergonhoso para mim, expor feridas que, por terem sido feitas voluntariamente, vocês julgam que não me doam. Mas que machucavam antes mesmo de terem sido feitas. Não é culpa de vocês, repito. Não está no contrato, nem no inexistente best-seller “Como ser um bom pai”. E mesmo que tivesse, esse livro seria tão difícil de encontrar quanto o “Manual de Instruções da Mulher”.

Não pretendo me matar, só porque disse que não gosto de viver. Sou covarde. Não estou solteira por vergonha de estar acima do peso e não sofro por causa daquele único ‘ex’ que vocês souberam da existência. Há tantas coisas que vocês não sabem e continuar mencionando assuntos antigos, me deixa envergonhada pelos dois. Eu estava bem, até aquele dia em que me deparei com a decepção nos seus olhos e os suspiros doídos.

Mas tudo bem. Se vocês acham que o melhor para mim é ser o padrão, tenho que concordar. Ultimamente tenho dado tantas bolas foras e ser do contra não me deixa em vantagem nenhuma. Prometo ainda: enquanto eu depender financeira e emocionalmente de vocês, ambos continuam dando as cartas.

Voltarei a ser a filha que vocês adorarão ostentar para irmãos, amigos e sociedade. E eu vou agradecer a vocês quando – e se – no futuro eu conseguir um bom emprego e um bom partido. Aí vou ser obrigada a concordar que vocês tinham razão e que não fez diferença nenhuma a época que engordei, por causa da bebida, festas e churrascos que me renderam desinibição, papos cabeça e requinte de humor ao lado de amigos que me ajudavam a parar de pensar na falta de lógica e na perversidade que é pertencer a esse mundo.

Desde já, obrigada.

.

Prezado Miguel...

12 de set de 2008 - não enviada por CamilaRufine 3 comentários
Não conheço a senhora sua mãe, mas ela te escolheu um bom epíteto [valeu, dicionário!]. Segundo um site de significado de nomes, Miguel é alcunha de arcanjo. Significa ‘ninguém é como Deus’ e "indica uma pessoa diplomática e inteligente, que consegue se sair bem de qualquer situação". Se eu tentasse explicar mais o motivo de achar a escolha tão oportuna, me tornaria repetitiva. Miguel, seu nome virou até verbo!

Você me auxiliou a omitir muitas coisas dos meus pais. Contribuiu para a minha graduação em duas faculdades. Para a produção jornalística, para as provas subjetivas e para a redação de dois TCCs. Apoiou-me quando eu quis conquistar e desconquistar meus ex-amores. Deu-me idéias de como me portar para parecer mais inteligente.

Você é daqueles que são amigos por dom ou por maldição. Sua única escolha é sempre estar ali, pra ajudar. No meu caso, nunca me deixou na mão, mesmo que você não pudesse fazer milagres com a minha capacidade intelectual. Confesso que fiquei mal acostumada. E como eu poderia retribuir à altura, se reconhecimento você já tem de sobra? Sua comunidade no Orkut tem mais de 17 mil membros!

Essa foi a singela [leia-se preguiçosa] forma que eu encontrei de te homenagear: colocando em prática a essência da sua filosofia de vida, que é 'verborragicar'. Aproveitei o encejo para registrar aqui a minha imensa gratidão e a vontade de pra sempre te ter ao meu lado. Para finalizar, deixo nessa carta que nunca será enviada a promessa de que perpetuarei a sua lenda, sempre que as coisas derem certo para mim e eu confessar a todos que só consegui porque “miguelei”.

Te adoro, Migué!

Ps: Ah, só pra lembrar... amanhã tenho prova de Gestão Secretarial. Vê se aparece!
.

Olá, estranho barbudo

3 de set de 2008 - não enviada por CamilaRufine 2 comentários
Boomp3.com

Acho você interessante. Sempre tive uma queda pelo low profile, o jeito desleixado, o soslaio de quem pouco se importa com o mundo e o ar de quem sabe muito mais do que desejaria saber. Chamou-me a atenção, mesmo que você seja, é... hã... baixinho.

E você? O que será que pensa sobre mim? Será que se lembra apenas quando me vê? Ou nem isso? Acho meio difícil tantos encontrões passarem despercebidos. Será que você também já traçou o meu perfil? Sou do tipo que você se interessaria ou odiaria? Será que me acha uma fútil ou percebe minha tentativa em ser muito mais do que um rosto bem maquiado?

Às vezes penso que sei tudo sobre você e então me dou conta de que nem sei qual o seu nome. Não te acho bonito, mas alguma coisa me diz que eu devia te conhecer. E isso me incomoda, pois ultimamente tenho andado um tanto quanto supersticiosa.

Talvez essa seja a maneira que eu encontrei de agregar valor às coisas inúteis, tão freqüentes. Uma esquizofrenia leve e inofensiva, que me faz acreditar que eu tenho poder sobre o mundo. Uma seqüela que me protege, logo após à minha última super-crise existencial. Pode ser qualquer outra coisa, só que eu decidi que pra mim, esse tipo de coincidência não podia ser só acaso [mesmo que a afirmação seja paradoxa].

Mas, droga! Perde toda a graça se isso tudo nunca tenha passado na sua cabeça. Seria uma decepção conversar com você e descobrir que você acha que consegue viver fora do mundo capitalista só porque não consegue comprar um carro. Mataria-me saber que você adora se entupir de drogas só para afirmar que faz isso para chocar a sociedade. Seria o fim eu entender que você é apenas mais um que não consegue dizer 'não' aos amigos, que compra personalidade nas lojinhas punks e que ainda teima que consegue ser diferente do resto do mundo.

Então, estou te escrevendo pra pedir que você se mantenha aí, sempre longe. Continue na sua, que eu permanecerei na minha. Me dê o benefício da dúvida. Melhor perder a chance de conhecer alguém muito bacana do que saber que só meu tamanho te chamou a atenção ou que, na verdade, você esteja só afim de uma amiga minha, assim como todos os outros caras pelos quais nutri sentimentos platônicos parecidos.

Tchau. Até o próximo encontro mudo, na universidade...


.

Aos tios do meu caminho

- não enviada por Graci 3 comentários
Nunca usei um anel de compromisso. Uma vez me acusaram de estar usando um, mas, na realidade, era só um anel velho que ganhei da minha prima. Também não lembro de ter assumido algum compromisso, digamos, sério, até hoje. Nunca fui uma pessoa de relacionamentos consistentes e em nenhum dos meus inconsistentes relacionamentos me deram um anel. Tudo bem que, se dessem, eu teria encontrado uma desculpa, dessas bem esfarrapadas e não o usaria. Sempre achei cafonérrimo o tal anel, principalmente depois que vi que uma colega minha tinha uma coleção deles.

Mas, o fato é que, agora, tenho um anel de compromisso no meu dedo, sem relacionamento consistente ou inconsistente.

Meu anel é de prata e dentro dele está escrito Gilmar, em letra bonitinha. Encontrei-o no fundo de uma caixa de lembranças da minha irmã. Sim! Peguei escondido, e mais. Disse que comprei o anel em uma loja de bijuterias. Quando eu receber meu salário, compro outro e devolvo este ao seu mesmo bat local.

Não, não sou uma malvada mentirosa. Apenas precisei tomar uma medida drástica. Há quem diga que usar o tal anel chama pretendentes. Estou apostando no contrário. E tentando despistar, de todas as formas, os tios que cruzam pelo meu caminho, em profusão acelerada.

Desde que conheci o Lopes, tenho o medo de tios. Cada vez mais acredito que eles integram uma seita misteriosa, com o poder de descobrir quais mulheres estão sozinhas. E eu, como mulher sozinha, ímpar e desgarrada que sou, estou sempre na mira. Como namorado, desses de verdade, é artigo de luxo, me viro com o anel. Faço questão de, toda vez que tenho de falar com alguém pertencente à seita secreta, mostrar na hora e claramente meu dedo anelado. Na verdade, nem sei se funciona, nem em que mão tem que usar. Mas, de qualquer forma, ele vai ficar aí, como um colar de alho na frente de um vampiro.

Portanto, não cheguem perto, caros tios.

Caro Medo,

1 de set de 2008 - não enviada por CamilaRufine 3 comentários
Boomp3.com

Você nem merecia que eu te escrevesse, afinal, depois de tanto tempo de submissão, resolvi assim, sem mais nem menos, que não preciso mais de contato contigo. Na verdade, nunca precisei de você. Apenas precisava acreditar que precisava.

Sou daquelas pessoas que se sentem atraídas por um drama e você começou me conquistando por aí. Mas todo drama tem fim, seja por carta, livro, música ou suicídio. Eu celebro meus fins escrevendo. Como você foi o meu relacionamento mais intenso, acho que merecia me dar o direito do desabafo.

Você me fez sentir mal, subestimou a minha capacidade, humilhou-me, fez-me acreditar que éramos destino e que eu não poderia viver sem você.
No começo eu senti que estava no controle, que podia me livrar com um estalar de dedos. Por tempos achei a idéia do sadismo interessante. Algumas pessoas diziam que a gente formava uma dupla charmosa. Eu dependia de você e você de mim.

Quando me dei por mim, flagrei-me agindo pateticamente na frente dos outros, provando a qualquer um que quisesse ver, a sua superioridade. Você me interrompia no trabalho e na faculdade, você me arrastava para baixo, você me impedia de expressar minha opinião.

Hoje foi diferente. Nada e tudo aconteceu. Acordei e te vi ali, deitado comigo na cama e simplesmente não encontrei mais sentido. Quase entrei em pânico quando comecei a pensar racionalmente. Fiquei com vergonha de mim. Do que os outros pensavam sobre isso tudo. Por isso resolvi ir e deixar você, sem maiores explicações.

Não sei se você foi um vício, uma fase ou uma maldição. Sei apenas que vou tentar de tudo (benzedeira, pai de santo, comprimidos ou auto-ajuda) pra que eu continue assim: livre de você.

Não quero mais você dentro de mim. Procure outro corpo e mentes para dominar, pois eu já cansei de ser conhecida como uma de suas garotas. Se quiser, fique com as minhas coisas antigas. Vou ficar com algumas lembranças suas, pois não me dói recordar. Como já disse, eu adoro um drama. Mas quero de volta uma coisa: a minha auto-estima. Sei que você tirou ela de mim e a deixou cair por aí. Não estou zangada. A culpa também foi minha. Por isso eu mesma vou procurá-la, sozinha.

Tomara que até nunca mais.


.

Uma carta não-enviada, para você!

- não enviada por Graci 1 comentários
Papéis largados no fundo da caixinha de recordações... Cartas começadas, não-terminadas, não-enviadas... Pedacinhos de dias bons ou ruins, de emoções fortes ou amenas, pedacinhos de alma de duas garotas que sempre escreveram cartas compulsivamente - mesmo que de uma para outra.

Anos passaram, mil coisas fizeram com que as cartas cessassem. Camila ficou morena, Graci só não ficou loira por causa da alergia ao descolorante. Camila ficou em Guarapuava, Graci voltou para casa.

E com 300 quilômetros de distância, as duas retomam o ofício de empunhar a caneta, mesmo sem saber se suas palavras chegarão aos destinatários.