Seu Adolfo, velho Nêne...

26 de fev. de 2010 - não enviada por Graci 4 comentários
São dez anos, quem diria. Parece que foi ontem que eu aprendi a diferença entre a verdade crua e o eufemismo.

Lembro dos meus trejeitos aos 13 anos, do conjunto de moletom cinza, da pasta roxa, da professora querida dizendo que você tinha falecido, da minha pergunta interna naquele momento sobre haver dor parecida e do porque dela não dizer “morrido“. Preferiu falecido e até hoje essa palavra me lembra aquela situação.

Ainda hoje eu recordo do senhor sentado naquela varanda, olhando para o nada. Me encontro vendo a última vez em que vi o senhor, sentado na cama do quartinho dos fundos, cada vez mais magro e escondido debaixo de seu chapéu de palha. E penso, vô, o quanto eu deveria ter sentado do seu lado e dito que te amava, que o senhor sempre foi o meu preferido.

Às vezes eu penso que não precisava, que o senhor sabia disso.
E lembro do milho verde que o senhor assava na boca do forno, das nossas procuras pelas amoras no mato, daquele meu regador vermelho perdido no córrego lá na roça, enquanto a gente procurava por girinos.

Eu não deixei de sentir saudade, nem mesmo de imaginar como seria se o senhor estivesse aqui conosco. Cada vez que as redes chegam cheias das pescarias eu lembro daquela tarde, de só nós dois no barco e das fantasias em que o senhor me fez acreditar. Lamento por não o ter por perto para ensinar para o Totonho um pouco do que aprendi contigo, mas penso que, pela sem quantia de saudade que o senhor deixou no pai, é seu o brilho que vejo nos olhos dele, sempre, mesmo sem o chapéu.
Eu continuo perdida, tanto quanto o senhor.

Da decepção

24 de jan. de 2010 - não enviada por Camila Rufine 4 comentários
Ela não esperava por essa.

E, de repente, o esboço de esperança que ela tinha desapareceu, dando lugar a um dos maiores sentidos figurados - e clichês - da decepção: o chão se abriu, deixando seus pés sem apoio. Uma queda imaginária, mas sem fim, que fez o seu estômago congelar. Seu corpo tremia.

Ainda anestesiada pela novidade, teve ganas de se punir. Queria qualquer coisa feia para si mesma como castigo por ter acreditado que daria certo. Pensou em desinfetar sua derrota com a ingestão de qualquer coisa alcoólica. Cogitou desistir de tudo, mais uma vez.

Depois de alguns instantes seu cérebro voltou a funcionar. E mais rápido, para compensar o tempo de letargia. Na pressa, dopou-a com uma descarga enorme de enzimas. Ao menos foi esse o diagnóstico que ela se deu quando sentiu uma vontade incontrolável de gargalhar. Achou que poderia estar louca. Talvez fosse isso mesmo. Tudo não passaria de um delírio esquizofrênico. Mas não era. Abriu e fechou os olhos e a verdade continuou ali, escancarada.

Voltou para o quarto para se recompor. Abriu a gaveta em busca do celular para pedir o ombro da amiga mais próxima. Mas antes de alcançar o aparelho, encontrou a cartela de anticoncepcional e viu que restavam apenas duas pílulas. Bingo. Ela estava de tê-pê-eme. Isso explica os quilos a mais, mesmo ela tendo feito o regime certinho. Explica também todo esse drama mexicano acerca do ocorrido.

Concluiu que já que era sexta-feira, poderia jogar tudo para o ar. Então, continuando com os clichês da noite, ela abriu o pote de sorvete, colocou seu pijama e deu play no filme que ela estava enrolando para assistir. Esqueceu dos jeans apertados no guarda-roupa e jurou a si mesma jamais subir em uma balança outra vez. Mas assim como a promessa que ela fez de nunca se apaixonar novamente, ela sabe inconscientemente que essa é uma garantia que mulher nenhuma pode dar.

Para que você saiba

14 de jan. de 2010 - não enviada por Graci 4 comentários
Ontem eu te dei um abraço, dois, mas queria mesmo é ter roubado ao menos metade da sua dor.

Fiquei ali enquanto você estava presente, porque se havia alguém que precisava de atenção – ou pelo menos de consideração -, era aquela que não conseguia manter os olhos abertos sem lágrimas. Olhar você, as outras pessoas, aquele cenário estranho e complexo, fez com que eu ficasse mortificada e inebriada.
Tive vontade de sair correndo para me sentir novamente viva. Senti o desejo de dizer para cada uma das pessoas que amo o quanto elas são importantes. Quis ter aquele homem que achei interessante na minha frente para poder lhe contar o quanto estaria disposta a me entregar. Quis ser imortal quando lembrei do Marco Antônio e do que eu significo para ele, tanto quanto ele significa por mim. E senti medo, muito medo. Fiquei parada, petrificada.

Pensei em quanto já tive medo da morte, no tanto que tenho e no que esse medo desencadeia. Desejei apenas não sentir medo quando ela estiver próxima, muito próxima apenas, porque, afinal, ela está em todos os lugares e ter medo dela é ter medo da vida. Mas, tenho medo de ver você de novo e a tristeza estampada em seu rosto, mas como você, que vai encarar a vida sem o seu amor, terei coragem para estar mais perto do nunca estive.

Essa é uma promessa, daquelas que serão cumpridas e não esquecidas com o surgimento de uma nova aurora.

Afeto, de fato

10 de jan. de 2010 - não enviada por Camila Rufine 6 comentários
Depois de um sábado inteiro de folga e longe de casa, era meio dia de domingo e eu esperava na cozinha pelo início da minha jornada dominical como Au Pair. Foi quando Jake, o 'meu' menino mais velho (2 anos) entrou pelo batente de braços erguidos. Ele queria me dar um abraço e eu reagi sinceramente surpresa.

Enquanto pegava ele no colo para dar e receber um longo abraço, o pai chegou na cozinha e ficou admirando a cena. E quando teve a oportunidade, ele disse que o menino esteve temperamental e difícil toda a manhã e que então era uma cena boa de se ver.

Depois que coloquei o menino no chão ele estendeu os braços para que eu o pegasse no colo novamente. Dessa vez ele me ofereceu o leite do seu copinho plástico e deu a maior gargalhada com a onomatopeia de goles que simulei.

Nesse segundo, acabou a minha revolta por estar trabalhando num domingo à tarde, quando todas as minhas amigas estão reunidas fazendo alguma coisa legal.

Noel, Noel...

21 de dez. de 2009 - não enviada por Graci 4 comentários
Ah, meu bom velhinho. Nós nunca fomos muito íntimos, não é mesmo? Mas eu juro, te juro, que já esperei bem mais de ti e fui bem menos compreensiva, portanto, as chances de nossa relação deslanchar de agora em diante são múltiplas.

Primeiro, porque com uns cinco dias de adiantamento o senhor deu um jeitinho de fazer chegar às minhas mãos aquele abençoado litro de Amarula. Admito, foi lindo, velho Noel. Emocionante, eu diria.

Segundo, porque eu tenho falado muito bem do senhor pro meu polaco, o Totonho. Elogio o senhor sempre, conto que é um cara muito gente boa que antes do Natal distribui um monte de balas e pirulitos e que, quando chega o dia 24, dá um presente bem lindo pra gente brincar no dia 25 inteiro e não enjoar nas semanas seguintes. Estou sendo bem bacana, admita.

E terceiro, mas não menos importante, porque eu resolvi te dar um pouquinho de sossego. É, é isso mesmo que o senhor está lendo. Não quero a minha casa da árvore, o kit de ferramentas culinárias ou aquela caixa de sei lá quantos lápis de cor que pedi por uma década sem ser atendida (presentes que o senhor muito sensatamente, diga-se de passagem, resolveu ignorar). Pensando bem, eu até queria um notebook, alguns livros e uns dois ou três vestidos ou sapatos - não custa nada lembrar que agora eu calço 39 e o manequim parou no 38 - mas não espero mais ansiosamente por nada que o senhor possa trazer.

Então, como essa é a primeira vez que dezembro chega ao final sem eu pensar nos presentes, acredito que mereço alguma recompensa (ta, tá, não vou exagerar). Faça, bom velhinho, apenas com que tenha tempo para brincar com os presentes que o senhor vai dar para o Totonho. É claro que estou ciente que eles são bem interativos e vão pedir a presença de alguém para se tornarem mais interessantes. Só quero isso.

Fácil, não?

Selada a paz, manda um abraço para aquela sua filha, a Tati. Ela é muito bacana, sabia? Bobagem, claro que o senhor sabe disso bem mais que eu.

Por este ano, é só. Saiba apenas que um pratinho de biscoitos vai esperar pelo senhor lá em casa, na noite do dia 24.
Desta vez colocado por outras mãos, umas mãozinhas polacas.