Não é fácil quando alguém vai embora e nós ficamos. Não, quando queríamos que essa pessoa ficasse.
É impossível resistir. Revisamos a memória em busca de sinais de desonestidade, bigamia, desinteresse, abdução ou psicopatia na pessoa que partiu. Investigamos páginas sociais na internet, ficha na polícia, amigos, vizinhos, o nome no Serasa... tudo, à procura de um indício.
Precisamos de provas de que aconteceu algo muito grande. De que só por uma fatalidade alguém não quis ficar ao nosso lado. Sorte de quem encontra alguma justificativa. Triste é, depois de tanta procura, constatar que a resposta mais plausível é a de que nós é que não demos nenhum motivo razoável para que o outro ficasse.
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clichê,
Lição de casa
Porque te esperei três semanas, cada dia, todas as horas, os incontáveis minutos e toda vida, esses últimos segundos são os que mais demoram a passar.
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Bilhete só de ida,
Confesso,
Mini-tudo

Um sorvete de limão com calda de morango.
Uma colher para duas bocas gulosas.
Flores de ipê sobre o amor perfeito.
Cor de natal no agosto do desgosto.
Um homem sobre a carroça de lixo duas vezes maior que sua altura.
Uma igreja e suas duas portas fechadas.
A solidão como companheira no banco da praça.
Um diálogo íntimo com o tempo, para que ele não passe.
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Me mim comigo
No parquinho eu derretia sob o sol, enquanto observava o grupo de garotas a brincar de pirata e vigiava para que nenhuma tragédia envolvendo os meninos que eu cuido e a lei da gravidade acontecesse. Parei embaixo de um dos escorregadores para aproveitar alguns segundos de sombra, quando escutei:
- Tubarão! Tubarão! Tubarão!
Olhei para cima e vi, pela fresta da plataforma, o indicador de uma menina magricela que apontava para mim com os olhos esbugalhados. Não me contive e perguntei:
- Eu sou um tubarão?
Ela me fitou com um cinísmo quase adolescente e respondeu que sim. E continuou:
- Tubarão gigante, salve-se quem puder!
O resto da patotinha de meninas olhou para mim e começou a gritar desesperadamente. A garota magricela, que parecia ser a capitã do navio imaginário, passou a despejar ordens para as marujas, que começaram a correr para lá e para cá, como baratas detefonizadas. Eu estava desidratada demais para entrar no clima e simplesmente abstraí. Mas daquele momento em diante, toda vez que eu me aproximava do escorregador era o mesmo alvoroço. Até que as meninas foram embora.
Respirei tão aliviada pela desocupação do ambiente que me senti mais disposta. Então fui brincar com um dos 'meus' meninos, carregando-o nas minhas costas e dizendo:
- Pocotó, pocotó, eu sou um cavalo!
Mas a minha representação foi interrompida pelo garotinho que parou do meu lado para me corrigir:
- Você não é um cavalo. É uma girafa.
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Estranja,
Faz-me rir
Sabe quando a pele está tão descuidada, seca e quebradiça, que começa a coçar?
Pois é. Estou com essa coceira, mas é no coração.
Você sabe se existe Monange em cápsulas?
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Mini-tudo,
Tragicomédia