Não enviada bem antes do blog...

10 de fev de 2009 - não enviada por CamilaRufine


Guarapuava, 03 ou 04 e abril de 2006.

Formalidade nunca foi e dificilmente se tornará uma característica minha. Porém, penso que não combina misturar interjeições pré-pós-adolescentes, um monte de pontos de interrogação e exclamações cheias de conotações emotivas com um conteúdo nada emocionante, nada empolgante e nem tampouco motivado. Na verdade, deveria me importar pouco com forma e conteúdo, já que essa é uma carta suicida.

Mas antes de ter um treco, ria. Estou mandando! Não me mataria. Minha vida pode estar a inhaca que for, mas já sou inútil demais para acabar com ela, carregando uma fama de ter sido inútil e ainda por cima covarde.

Chame a mim de melodramática se achar que esse adjetivo me cabe. O que mais sinto falta nos últimos tempos é justamente de adjetivos. Sejam eles pejorativos ou não.

Respondendo à pergunta da sua carta [Que carta? Deve ser a Graci!], mentiria se dissesse que estou bem. Mentiria o mesmo tanto se eu escrevesse que estou mal. Há uma lacuna esperando pra ser preenchida desde que nasci e só agora percebi. Talvez eu tenha teimado em negá-la, escondendo-a atrás de brincadeiras irônicas, do otimismo forjado e do sorriso-amarelo-claro (que sonhava em ser branco).

...

Socorro. [Parodiando Arnaldo Antunes, Camila?] Não há dor e não há prazer. Não há amor e não há ódio. Não há saudade, nem perspectivas. A vontade de calar e de gritar se confundem. Nada parece estar certo, nem tampouco errado... Não quero que continue assim, mas não tenho forças pra mudar.

Então eu como o maior número de calorias possível, até que dôa o estômago. Assim sinto-me cheia de alguma coisa. Mas depois volto a ficar deprimida, pois sei que muitos me olharão torto quando as minhas roupas voltarem a não servir mais.

Não quero ser uma inútil-fracassada-e-gorda. Também não quero mais ser um peso financeiro para meus pais. Oscilo a gula-extrema com regimes paranóicos. Aí, a minha vida passa a ser contar calorias. Mas só até eu cair na promiscuidade alimentar novamente.

Também oscila entre 8 e 80 a minha vida universitária. Me empolgo, num primeiro momento e depois volto a me decepcionar com tudo: gente burra, professores toscos e falta de respaldo metodológico. Mais uma vez me tiram o chão e lá estou eu, novamente deitada no chão do meu quarto, chorando.

[Estava relendo as cartas que a Graci me enviava, quando achei essa uma, que parece ser uma das que eu não enviei para ela, mas também não joguei fora. E eu nem sabia da existência do termo 'bipolar'.]

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4 Response to "Não enviada bem antes do blog..."

  1. Graci Polak Says:

    Socorro não estou sentindo Na-da!!

    Quase três anos se passaram e a gente volta para o mesmo vazio oco. Faz duas semanas que estou com essa música na cabeça, pensando nas verdades que ela me diz e vc a ressuscita em uma carta que me leva exatamente para o mesmo ponto de partida.
    Me vejo no chão, lendo com preocupação as palavras do papel, com a letra que vc julga feia.
    Tenho uma carta não enviada para vc escrita na mesma época...

    Incrível como a gente sempre se encontra na melancolia...
    Que saudade de tudo, beibe. Das feiras no Baratão, das passagens por obras, dos funks pedreiros descobertos na net... da bisteca com aquele seu tempero verde, da farofa bombástica, do pote de sorvete, das pipocas Grazi combinadas com as marchinhas de carnaval da Mtv...

    (pausa)

    Faz falta... tudo!

  2. Paulinha Fernandes Says:

    Camis, querida!
    Olha, me identifiquei com boa parte da carta, querida!
    E, bom, como a Graci, também sinto muita falta. De tudo.
    Se cuida, querida!
    Beijo

  3. Michele Matos Says:

    Carta suicida inteligente, nem dá vontade de se matar.
    =**

  4. Dom Says:

    Dom
    (ventoonde.blogspot.com):

    Tivesse você realmente se matado perderíamos trechos e textos ímpares, que fazem bem e mal ao coração.